As fases do divórcio

Retomando as fases que compõe esse momento delicado e que pode servir para mudança… não é do dia para a noite que alguém decide encerrar uma relação. Há muito em jogo: expectativas, sonhos, compromissos, responsabilidades, afetos e até algum grau de comodismo.

Em um primeiro momento existe uma contemplação – reflexão e quase que uma equação. Para ser sintético, posso dizer: se o resultado for positivo, a tendência é de continuidade; se neutro também. Muitas vezes até o resultado negativo pode levar um tempo para culminar com o término. Não é uma conta simples, existem muitas variáveis.

Ainda mais em um país ainda em desenvolvimento, onde um divórcio tem implicações financeiras e estruturais. Após a contemplação, tendo se optado pelo rompimento, caminhamos para o anúncio.

E aqui destaco que por vezes o anúncio não é exatamente definitivo; podendo servir como “pedido de socorro para a relação”. Mas caso seja o anúncio verdadeiro e taxativo, adentramos uma nova fase – talvez a mais desafiante.

A reconstrução é inexorável e dispende suor, afinco e cuidado. É preciso ter gana para reestruturar uma vida; mas também cuidado com sigo mesmo. Se não tivermos atenção, aqueles modelos já vigentes podem ser repetidos e consolidados em novas relações.

E, dia após dia, o término (no nosso caso de discussão, o divórcio) é concretizado – mudanças se sucedem: no âmbito infraestrutural, financeiro, afetivo, social, familiar, dentre tantos.

Lembremos que o terreno deixado vazio após a saída de alguém de nossas vidas deverá, aos poucos, ser preenchido e reocupado. E, de novo, reforço o alerta para que essa ocupação seja bem feita. Que nossos corações voltem a ser preenchidos por algo que vale verdadeiramente a pena em ser amado.

Por Gustavo Villa Real, médico (CRM 209727/SP), psicanalista e colaborador do Idivorciei. 

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Como pude me iludir tanto?

Um questionamento pertinente e bastante frequente ao término de uma relação. Existe um processo inevitável de ilusão e fantasia. Até porque a paixão é, por definição, o silenciamento (ainda que transitório) da razão.


É importante ressaltar que para muitos o termo ilusão dá a ideia de processo passivo – como se fosse mais responsabilidade do outro do que nossa. Como se o outro nos ludibriasse e não nós mesmos que tivéssemos visto aquilo que nos interessava. Entender que é um processo autoral e ativo, ainda que inconsciente, é fundamental.


A ilusão dentro do contexto de uma paixão é inevitável. Sentimentos e emoções tomam conta de nossa vivência; dando espaço para que impulsos e energias inconscientes tomem as rédeas da situação. Governados por aquilo que é emoção, em detrimento daquilo que é razão.


Porém, se sistemática e constantemente olharmos para dentro, podemos prever alguns desses apreços que nem sabíamos ter. Qualquer processo analítico é oportunidade de compreender de forma mais clara aquilo que nos irrita, enoja, distancia e aquilo que nos fisga e aproxima.


Conhecer a nós mesmos é ferramenta para, possivelmente, prever essas ilusões. Além disso, entendendo a relevância inconsciente desses sentimentos, podemos nos perdoar por termos “nos iludido tanto…

Para concluir, cito Paulinho da Viola, que dizia:
“A todo instante rola um movimento
Que muda o rumo dos ventos
Quem sabe remar não estranha
Vem chegando a luz de um novo dia
O jeito é criar um outro samba
Sem rasgar a velha fantasia”
É preciso aprender a remar…”

Por Gustavo Villa Real, médico (CRM 209727/SP), psicanalista e colaborador do Idivorciei. 

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Onde é que me perdi ou onde é que me escondi?

Em nossa sociedade patriarcal, esse é um questionamento muito frequente entre mulheres que, durante um relacionamento, acabam tendo sua individualidade perdida (ou melhor, escondida). 

Tentarei discorrer sobre esse processo. Que começa, por essência, na construção de uma sociedade patriarcal. Mas qual o significado disso ou suas implicações? A sociedade onde vivemos, crescemos, nos constituímos, aprendemos a amar e nos relacionar nos mostra caminhos. Caminhos esses já consagrados e muito mais acessíveis do que os ditos “inovadores”. 

No início existe um interesse mútuo e vontade de conquista – o que há de mais belo é exposto. Um ar de sedução, interesse e resiliência. Essa intenção de “embelezar” a realidade não é maldosa ou mentirosa por essência; apenas é limitada. Trata-se de um convite para que algo cresça. 

Se não houvesse interesse (e poderemos discutir em outros textos quais interesses levam alguém a se aproximar de outro), nada aconteceria. E esse interesse se transforma em uma forma de dedicação – direcionamento de tempo e atividades a esse outro alguém. Aquilo que começa com um encontro passa a ser mais frequente e relevante. Até que as coisas se unifiquem – lazer, atividades sociais, rotina, até casa e outros. 

Lembrando que o processo de “se perder” (chamarei assim) pode ocorrer tanto em casamentos duradouros, quanto em relações muito mais fugazes. Não existe regra quanto a isso. A regra é uma: ambos com o tempo irão se frustrar. E aí que talvez o processo comece efetivamente. 

Diante de frustrações, soluções precisam surgir. Alguma forma de diálogo (ainda que mínima e insuficiente) deve existir. E um “pacto”, alguma forma de contrato precisa ser firmado – com o intuito de evitar novamente o mesmo problema. E dependendo da forma como esse contrato é feito, suas condições e motivações; é possível que alguma liberdade seja perdida. 

Abdicar de liberdades faz com que um perigoso precedente se abra, o que pode se suceder outras vezes. Além disso, isso distancia a pessoa daquilo que outrora trouxeram prazer. Pode ser alguma atividade que se deixa de fazer, amigas(os) que se deixa de encontrar, temas que se deixa de abordar. Isso pode evitar discussões; mas aliena. 

E esse tipo de concessão pode acontecer de forma bilateral (acometendo ambos); mas diante do modelo de sociedade em que vivemos, é indiscutível que mulheres possam ser mais frequentemente acometidas. E com o tempo, aquilo que tornava aquela pessoa autêntica, se perdeu. E pode permanecer assim por tempos.

É claro que o reencontro com sua singularidade pode ocorrer durante a relação. Contudo, por vezes, é tarde demais e uma mudança precisará acontecer. E essa mudança acaba trazendo espaço; o qual pode promover questionamentos angustiantes, mas pertinentes. 

Cito uma passagem do filme “Tudo sobre minha mãe”, em que a personagem Agrado diz algo assim: custa caro ser autêntico(a), mas com esse tema não podemos ser avarentos. E seremos mais autênticos, à medida que nos aproximamos daquilo que sonhamos ser. 

Busquemos nossos sonhos e tenhamos clareza se são nossos ou de outros.

Por Gustavo Villa Real, médico (CRM 209727/SP), psicanalista e colaborador do Idivorciei. 

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A convivência é sem dúvida um desafio para todos nós

Textos introdutórios costumam ser pouco objetivos e muito pretenciosos. Tentarei ser breve e reforçar o convite para que possamos refletir juntos sobre relacionamentos e, é claro, divórcios. 

A convivência é sem dúvida desafio para todos nós: saber ser assertivo, dizer não na hora certa, ser grato e compreensivo. Tantas habilidades que teremos de desenvolver nesse mundo em que vivemos. Por isso olhar para si e para nossos hábitos e até vícios é fundamental. 

Falando de divórcios, é um momento delicado. Mas de grande potencial para mudança e evolução. Para entender esse estágio, temos de entender a criação e o surgimento de uma relação, que acontece em uma sociedade com suas características e nuances. 

Como você está se amando? Como você tem amado os outros? Como você usa seu tempo? Você tem cuidado de você e de suas relações? 

A subjetividade é imensa e profunda – precisamos cuidar das nossas. Como médico, estou à disposição e como escritor para o blog, estou aqui para que nós possamos caminhar no incerto e chegar a boas conclusões. 

Por Gustavo Villa Real, médico (CRM 209727/SP), psicanalista e colaborador do Idivorciei. 

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